sexta-feira, janeiro 27, 2006

Açores e a paixão pela geologia

Uma fotografia pode lembrar-nos o que fomos, onde estivemos, coisas que fizemos, pode auxiliar-nos a memória, levando-nos a viajar até ao nosso arquivo existencial. Descobri que uma pedra também o pode fazer, com a vantagem de que podemos tê-la à vista, sem que ninguém suspeite de nada. Acaba por ser uma relação secreta que tenho com essas pedras. Só têm valor para mim, só eu sei como e quando chegaram a minha casa, de onde e como vieram, são algo suficientemente abstracto, que está ligado a um momento, a algo especial. Olhar para elas é como viajar no tempo, é como voltar a lugares que um dia desejei não deixar ou onde desejo muito voltar. Volto sempre das viagens com mais peso na bagagem. A qualquer sítio que vá, não consigo resistir a retirar uma pequena porção desse espaço. Tento com elas construir o edifício da memória e assim, partindo de pequenos fragmentos, chego à totalidade das coisas. Foi deste modo que cheguei aos Açores e que ao longo da minha vida me fui apaixonando pelo fascinante mundo da geologia.

Exemplar de Volframite das minas da Panasqueira

A Geologia definida por um geólogo pode não ser a melhor definição mas... a geologia é o estudo austero do esqueleto da paisagem e de tudo aquilo que a constitui. Ao ver a montanha, o geólogo pensa no mar do qual ela saiu; ao ver o mar, pensa que nele serão depositadas as montanhas do futuro. A profissão do geólogo só pode ser exercida apaixonadamente. O geólogo deve ter sobre as ciências da Terra um conhecimento aprofundado que exige uma longa e afectuosa familiaridade.

Será geólogo quem não tiver perscrutado longamente nos mapas os contornos dos continentes? ou as sinuosidades dos rios impostas pelo relevo? as falhas? as fronteiras das placas litosféricas? ou tentado arranjar uma explicação para a forma dos lagos e para o traçado das cadeias de montanhas. O verdadeiro geólogo não só conhece os fósseis e os minerais, como também os ama. Ama-os incompreendido, gerando paulatinamente na sua mente suas imagens até às raias da obsessão e de forma modesta lê-lhes o testemunho escondido, daquilo que eram ali e outrora.

Com a mochila às costas e o martelo na mão, caminha, caminha toda a vida, sobre as cristas, e os fundos de vales, com o olhar fixo nas rochas, onde espera que apareça o indício que procura e que lhe poderá trazer mais uma resposta ou quem sabe levantar uma nova pergunta.

O verdadeiro geólogo deve ter pulmões infatigáveis, pernas de alpinista e às vezes ombros de ferro, porque a pedra é pesada e deve ser transportada e estudada no laboratório. Mas o gosto que aplana montanhas e vales e a paixão que o anima, é capaz de sublimar a fadiga e a cada descoberta que faz, parte sempre de novo, infatigável, fazendo de cada caso de estudo uma nova e maravilhosa aventura... É ASSIM QUE ME SINTO E QUE ME IDENTIFICO GEÓLOGO!

6 Comments:

At janeiro 28, 2006 4:39 da tarde, Blogger zooexotico said...

Venho desejar as Boas Vindas a mais um Blog verde!
Não conheço os Açores mas ouço falar que são jardins plantados no mar.
Vou passar por aqui para saber mais sobre a Fauna, Flora e sobre o seu jardim.
Vou colocar um link no meu blog
http://musgoverde.blogspot.com/

 
At janeiro 30, 2006 4:29 da tarde, Anonymous Carlos Serra said...

É assim, com uma entrega como a tua, que cada um de nós deve dar-se à profissão que escolheu.

Continua, o caminho é esse.

Um abraço.

 
At março 30, 2006 10:50 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Quero felicitar a pessoa q construiu este blog, os Açores precisam ser geologicamente publicitados! Tal como tu sou amante de geologia (estudante de geologia da FCUL)e sou dos Açores, ilha terceira. Percebo perfeitamente essa relação com as coisas da terra, a minha casa tb tá cheia de pedrinhas hehe, cada um com a sua história. Parabéns!!

 
At abril 10, 2007 3:06 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Os meus parabéns pela escrita, é exactamente isto que eu sinto e que nunca consegui explicar às pessoas, bem tento, mas agora basta-me dar este endereço e as pessoas, amigos irão perceber porque razão tenho tantas rochas no quintal, todas diferentes e com cores e formas fascinantes, cada uma levando-nos a emoções e épocas singulares. É bom saber que existem mais pessoas assim.

Meu amigo, bem hajam os apaixonados pela Geologia.

S. Miguel, Açores.

 
At maio 12, 2010 11:42 da manhã, Blogger karol said...

Belíssimas palavras!Sucinto e direto. Geologia é minha vida.

 
At junho 12, 2010 9:00 da tarde, Blogger Diana said...

olá! preciso de ajuda com uma duvida que eu tenho. É o seguinte: Normalmente as ilhas são formadas por ascensões de magma das plumas termicas, ou seja, vulcanismo intraplaca. Então como foi possivel a formação dos Açores, visto que eles se situam na dorsal medio-atlantica? Eu quero dizer, os Açores nao resultaram de plumas termicas, foram resultado dos vulcões da dorsal oceanica? Eu acho isto estranho =S

Obrigada :)

 

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